Coração

Eu acho muito bonito quem fala com propriedade do próprio coração. O meu… Ah! Esse já foi alienado, dado em garantia, até hipotecado. Só não deixei fazer financiamento: ou amava de uma vez ou nada.

Você, não. Você sabe onde, com quem e quanto o seu coração está. O quanto é seu e o quanto você deu.

Outro dia caminhava pela rua e acho que vi meu coração. Ele apertou. Não era como antes. Me escondi atrás de um poste. Ainda bem que ele não me viu. Certamente ia querer voltar pro peito.

Acho que se o seu coração não tivesse tantas parcelas a vencer, você avaliava o meu. Quem sabe até fazia um contrato de seis meses, não é mesmo? Depois, se não se habituasse, era só ir.

Daí eu doaria todos os móveis, pintaria as paredes de branco, colocaria uns vasos com plantas pro sangue circular melhor. Com a condição de que eu não te visse passando na rua, segurando na mão o folheto de anúncio de um outro coração, eu sei que conseguiria pôr uma placa “vende-se a preço de amor” no pedaço que ficou do meu.

44 anos

Guardei aquela garrafa por 44 anos. Ficou ali num canto escuro e arejado. Sempre pude passar e olhar para ela.
Hoje, mais cedo, resolvi abri-la. Foi rápido, mas estava calma e consciente. Sempre soube como seria. Seco, mas nem por isso impossível de apreciar. Na verdade, eu gostei. Queria mesmo que fosse assim. Também sabia que não teria coragem de provar mais que um bom gole, nem tímido nem exagerado. Suficiente.

***

Meu pai é o tipo de pessoa para quem posso perguntar:

— “Pai, tem problema querer ficar sozinha?”

[Sei a resposta. Sei o gosto que ela tem quando passa pela boca e desce rasgando direto ao coração. Sei a temperatura da água que escorre pelo rosto.]

Também não preciso dizer muito mais que

— “Feliz aniversário! Eu te amo. Obrigada… Eh… Parabéns!”

***

Talvez eu tome outro gole daqui mais 44 anos.

Você corre como uma garota

25 de janeiro de 2017

Em filmes ou na vida real, quando um monte de garotos está praticando algum esporte, volta e meia o menos habilidoso ou menos disposto do grupo sofre aquela tiração de sarro com a melodiosa frase “você blá-blá-blá como uma garota”. “Você chuta como uma garota!”, “Você salta como uma garota!”, “Você lança como uma garota!”… Até em brigas é possível ouvir “Você bate como uma garota!”.

Não vou me prolongar dizendo o quão errôneas são essas afirmações. Vou me aprofundar apenas em uma, aquela que acredito ser a mais absurda, e que um homem, por mais que se esforçasse, por mais que adentrasse o alienígena universo feminino (meus cumprimentos ao presidente interino) e fosse tomado pelo mais alto grau de empatia pela luta feminina, ainda assim tal homem não a compreenderia: “Você corre como uma garota.”

Adepta de um estilo de vida que evita o sedentarismo, saio para correr de manhã bem cedo ou no fim da tarde. Correr é uma atividade prazerosa, barata, cheia de benefícios para a mente e para o corpo. Short, camiseta, tênis, estou pronta. Vou caminhando em direção ao parque do meu bairro, deteriorado e atravessado por um esgoto à céu aberto. Eu poderia dizer que chego no parque, dou umas voltas caminhando para aquecer, corro, caminho mais um pouco, então volto para casa e vou viver a minha vida. Mas não é assim que uma garota corre.


Saio no portão às 5h30 da manhã de uma terça-feira. “Nossa, ninguém na rua, comecei bem!”. Caminho até o parque. “Espero que aquelas senhoras já estejam por lá”. Passa um cara numa moto olhando mais do que o necessário para trás, quase acertou o cachorro. Chego no parque. “Ufa! Lá estão elas.”  Tem um cara sentado num banco. Começo caminhando. Passos rápidos, olhos no horizonte. Uma volta. Um cara sentado no banco. Ele está me olhando. Continuo caminhando. Uma senhora usa o parque como atalho para ir ao trabalho. Passos rápidos, olhos no horizonte. Duas voltas. Um cara sentado no banco. Começo a correr. O sol, e não só seus raios, começa a aparecer acima da paisagem. Ultrapasso as senhoras. “Controla a respiração. Inspira, respira, inspira, respira, inspira, resp…”Três voltas. “QUE GOSTOSA!”  Medo. “O que? Quem disse isso? Foi comigo? Foi o cara sentado no banco, não olha, continua correndo, ignora.” Continuo correndo. Olhos no horizonte. Sol nas minhas pernas. Adoro o Sol nas minhas pernas. Inspira, respira, inspira, respira.” Olho para as pernas. “Droga! O short tá subindo! Droga! Tá mostrando a parte branca que quase nunca pega sol. Droga! Tô quase terminando a volta. Droga!” Medo. Abaixo o short antes que… Quatro voltas. Um cara sentado no banco. “Passa rápido, não olha. Inspira, respira, inspira respira.” Cinco voltas. Ninguém sentado no banco. Continuo correndo. “Cadê ele? Meus Deus! Pra onde ele foi?” Olho ao redor. “Cadê as senhoras? Inspira, respira, inspira, respira. Tem uma ali… Ih, foi embora!” Seis voltas. Volto a caminhar. Passos rápidos, olhos no horizonte. “Tô sozinha. Cadê o cara? Será que ele se escondeu?” Olho ao redor. “Que paranoia! Melhor ir pra casa.”  Última volta. Vou embora.

Obra

O universo foi desenhado por uma criança que não pôde terminá-lo, pois foi interrompida por sua mãe por razões banais, como banho ou comida. Pobre mulher… Soubesse antes do que se tratava tal obra, teria esquecido o menino ali, criando. Quando ele se cansasse, tivesse fome, deixaria que ele viesse até ela e, enquanto, ele revigorava o espírito, cuidaria do universo inacabado e zelaria para que fosse terminado. Com a própria vida, se necessário.

Se o menino usou todos os lápis, de todas as cores possíveis, eu não sei. Acredito muito mais que lhe foi tomado tempo. Pois a sina do criador se repete em nós, criaturas. Nunca vivemos completamente, pois sempre paramos em algum ponto da obra. Nossas questões nunca serão totalmente solucionadas, pois a criança criadora não teve tempo de desenhar todas as respostas.

Vida e Universo. Obras inacabadas. Inacabadamente completas.

Carta

Eu nunca fui de falar muito, talvez você já tenha percebido. Mal respondo o que me perguntam. E fico ali, calado, esperando a próxima dúvida banal para preencher o silêncio que, sinceramente, não me incomoda.
Não me pergunte o porquê do meu pouco falatório. Ainda que eu saiba, não vejo que diferença faria contar. A questão é a alternativa que criei para essa pequena falha social: eu escrevo cartas.
De agradecimento, de desabafo, declarações, explicações. Profundas ou rápidas, cartas. Falo tudo o que nunca disse. Me exponho de tal modo que quando termino, leio, releio… simplesmente guardo a carta. Esta que nunca será recebida, lida, refletida, questionada, respondida.
Pobre carta, nunca vai se aninhar num envelope. Nunca vai ser beijada por um selo. Nunca vai ver mais do que a própria escrivaninha. Nunca vai ser tocada pelo carteiro. Nunca vai conhecer outras cartas. Nunca vai se sentir desejada no meio de contas, tarifas e boletos. Nunca vai se sentir imaculada e ao mesmo tempo reveladora quando o lacre entre remetente e destinatário for rompido.
Nunca vou falar mais que um bilhete de “volto logo”.