Escrevi no ônibus

Escreveu uma lista com os seus dez principais desejos. “Pra quê uma lista se você pode concretizar os dez e tantos outros mais?” você perguntaria. Mas a peculiaridade dos itens dessa lista é que eram todos desejos para serem realizados postumamente.

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Se não for da minha idade, converso numa boa.

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Viajar por outros trajetos com diferentes companhias te dá outras perspectivas.

Quinari

Arnaldo nem havia nascido quando tomou conhecimento das peripécias infundadas da vida. No quintos mês de gestação sua mãe levou uma queda, fraturando a perna do filho, que sarou ali mesmo, na barriga. Também… pudera! A mãe foi a primeira a se formar na modalidade normal do magistério. Vem do útero essa coisa impressionável.

O historiador de 72 anos chegou até nós arrastando a perna esquerda. Começou interessado em quem nós éramos e o trabalho que realizávamos. Depois que entendeu minimamente, partiu para os próprios interesses. Tirou de um envelope pardo dobrado ao meio um CD numa capa de papel comum. Contou que ali havia todos os acontecimentos relevantes daquela cidade do interior que ele testemunhara, além do que investigou bastante: era o projeto de sua vida. Arnaldo se autonomeou “história viva”.

44 anos

Guardei aquela garrafa por 44 anos. Ficou ali num canto escuro e arejado. Sempre pude passar e olhar para ela.
Hoje, mais cedo, resolvi abri-la. Foi rápido, mas estava calma e consciente. Sempre soube como seria. Seco, mas nem por isso impossível de apreciar. Na verdade, eu gostei. Queria mesmo que fosse assim. Também sabia que não teria coragem de provar mais que um bom gole, nem tímido nem exagerado. Suficiente.

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Meu pai é o tipo de pessoa para quem posso perguntar:

— “Pai, tem problema querer ficar sozinha?”

[Sei a resposta. Sei o gosto que ela tem quando passa pela boca e desce rasgando direto ao coração. Sei a temperatura da água que escorre pelo rosto.]

Também não preciso dizer muito mais que

— “Feliz aniversário! Eu te amo. Obrigada… Eh… Parabéns!”

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Talvez eu tome outro gole daqui mais 44 anos.

Você corre como uma garota

25 de janeiro de 2017

Em filmes ou na vida real, quando um monte de garotos está praticando algum esporte, volta e meia o menos habilidoso ou menos disposto do grupo sofre aquela tiração de sarro com a melodiosa frase “você blá-blá-blá como uma garota”. “Você chuta como uma garota!”, “Você salta como uma garota!”, “Você lança como uma garota!”… Até em brigas é possível ouvir “Você bate como uma garota!”.

Não vou me prolongar dizendo o quão errôneas são essas afirmações. Vou me aprofundar apenas em uma, aquela que acredito ser a mais absurda, e que um homem, por mais que se esforçasse, por mais que adentrasse o alienígena universo feminino (meus cumprimentos ao presidente interino) e fosse tomado pelo mais alto grau de empatia pela luta feminina, ainda assim tal homem não a compreenderia: “Você corre como uma garota.”

Adepta de um estilo de vida que evita o sedentarismo, saio para correr de manhã bem cedo ou no fim da tarde. Correr é uma atividade prazerosa, barata, cheia de benefícios para a mente e para o corpo. Short, camiseta, tênis, estou pronta. Vou caminhando em direção ao parque do meu bairro, deteriorado e atravessado por um esgoto à céu aberto. Eu poderia dizer que chego no parque, dou umas voltas caminhando para aquecer, corro, caminho mais um pouco, então volto para casa e vou viver a minha vida. Mas não é assim que uma garota corre.


Saio no portão às 5h30 da manhã de uma terça-feira. “Nossa, ninguém na rua, comecei bem!”. Caminho até o parque. “Espero que aquelas senhoras já estejam por lá”. Passa um cara numa moto olhando mais do que o necessário para trás, quase acertou o cachorro. Chego no parque. “Ufa! Lá estão elas.”  Tem um cara sentado num banco. Começo caminhando. Passos rápidos, olhos no horizonte. Uma volta. Um cara sentado no banco. Ele está me olhando. Continuo caminhando. Uma senhora usa o parque como atalho para ir ao trabalho. Passos rápidos, olhos no horizonte. Duas voltas. Um cara sentado no banco. Começo a correr. O sol, e não só seus raios, começa a aparecer acima da paisagem. Ultrapasso as senhoras. “Controla a respiração. Inspira, respira, inspira, respira, inspira, resp…”Três voltas. “QUE GOSTOSA!”  Medo. “O que? Quem disse isso? Foi comigo? Foi o cara sentado no banco, não olha, continua correndo, ignora.” Continuo correndo. Olhos no horizonte. Sol nas minhas pernas. Adoro o Sol nas minhas pernas. Inspira, respira, inspira, respira.” Olho para as pernas. “Droga! O short tá subindo! Droga! Tá mostrando a parte branca que quase nunca pega sol. Droga! Tô quase terminando a volta. Droga!” Medo. Abaixo o short antes que… Quatro voltas. Um cara sentado no banco. “Passa rápido, não olha. Inspira, respira, inspira respira.” Cinco voltas. Ninguém sentado no banco. Continuo correndo. “Cadê ele? Meus Deus! Pra onde ele foi?” Olho ao redor. “Cadê as senhoras? Inspira, respira, inspira, respira. Tem uma ali… Ih, foi embora!” Seis voltas. Volto a caminhar. Passos rápidos, olhos no horizonte. “Tô sozinha. Cadê o cara? Será que ele se escondeu?” Olho ao redor. “Que paranoia! Melhor ir pra casa.”  Última volta. Vou embora.

O galão

Estava anoitecendo. Do meu quarto ouvi o som costumeiro de alguém movendo o galão de água da varanda para a sala.
Esperei o segundo movimento de alguém erguendo-o e caminhando para a cozinha. Esperei. Esperei mais um pouco. Nada. Tive de ir conferir.
Ao sair do quarto, vi que não se tratava de um galão, mas de meu pai. Eu não diria que estava deitado, mas que se deixou cair ali na porta da sala, de bruços. Metade do corpo para dentro de casa, metade para fora.
Era um homem, mas também era um galão. Um galão cheio da bebida que emudece os sentidos e expõe as feridas. Um galão carregado da mágoa de não ter sido convidado para participar de um momento sublime de oração familiar Àquele que honra até mesmo os indignos. Um galão que entre lágrimas dizia não ser amado, dizia ser alguém sem salvação.
Naquele dia minha mãe tinha ido à igreja, naquele dia eu chorei. E desde aquele dia meu pai não foi mais um galão.

18/12/2014