Eu vi um beija-flor desenhar o dia

Eu vi um beija-flor raiando
No findar da madrugada
Pousava na ponta do galho
Sem folhas
E balançava e ria

Outros pássaros chegavam
E o beija-flor se exibia
Maneirinho, maneirinho
Ligeiro, pulava para longe
Sumia e reaparecia

O céu foi clareando
Eu vi um beija-flor desenhar o dia

Migalhas

Desapegarmo-nos
Foi precisamente necessário
Soltamos tudo a esmo
Deixamos tudo no caminho
Só trouxemos migalhas
Para que nos guiassem
Não podíamos esquecer-nos do propósito
Que tira de nós toda coisa vã
E arranca as vestes da soberba
E sentindo frio
E uma falsa fome
Comemos das migalhas
E era como acordar com o sol quente
Na face depois de uma noite de sonhos intranquilos
E ao despertar com tamanha quentura na pele seca
Me foi revelado que nada se soluciona
Com o passar do tempo
Quem grita acima da própria cabeça
Que o tempo há de desenrolar as tramas
do mais engenhoso e ardil tear
que enlinha as nossas vidas…
sem qualquer esmero com meu e com vosso frágil espírito
Quem grita tamanhas ignorâncias
Só foi salvo pelo fortuna da própria morte
E assim não teve chance, nem por um momento
De admitir
Que o tempo mesmo é…
Eu não sei nem dizer o que nos é o tempo
Estou à mercê do tempo
Como vós
Estou esperando por sua graça
Como vós
Não há qualquer esperança
Isto é, não há qualquer espera fortuita
Para nós
Desapegarmo-nos
É precisamente necessário

Folhetim

Cabe o meu nascimento
Cabem os primeiros passos
E todos aqueles cochilos debaixo da mesa da pré-escola
Nunca entendi porque se chama “pré-escola”
As salas eram iguais, tem até uma professora
Foi lá que aprendi a ler
Pra mim já era a escola toda

Cabe o dia que caí de vestido na
poça d’água
Era azul florido
E eu sempre o vestia como quem vai entrar no paraíso

Cabem as valsas e os vídeos caseiros
de domingo na Tekpix
Como cabem os jogos de futebol
da 4ª divisão
Quem estava ali
Ou era muito interessado
Ou realmente não sabia ter outra coisa
que fazer
Além de ver o goleiro tomar um gole de água
Enquanto o jogo não vira
O jogo nunca vira
Talvez goles de cerveja num bar
tenham uma taxa maior de sucesso

Cabe aquele dia que nos perdemos no tempo
Saímos por cinco minutos
Voltamos
E nossos pais eram marcados e brancos
Eu te olhei e tinha uma estrada
em seus olhos
Uma placa dizia vida
E eu soube que atravessamos
aquilo juntos


A porta do armário cedeu de novo
As calandivas tem botões
Os dias duram mais nessa época do ano
E cada notícia que não informei
Foi pra deixar espaço
para o meu obituário

11/05/2022

Alma

Sou uma alma velha
Tudo soa como um gosto familiar
Tudo está guardado em algum momento da minha memória

Não há emoção que eu
Não tenha sentido
Não há melodia que eu
Não tenha experimentado

Cada canto do tempo e do espaço
É meu conhecido
Veja a criança a brincar!
Já a revivi em centenas, milhares!

Sou uma alma velha
O que não faz de mim acostumada

Tudo para mim é motivo de assombro
Perplexidade
Exultação de tamanho espanto
De modo mais simples
Um formigar frenético
Subindo do estômago até a boca
E então só me resta expelir
“Meu Deus”
E fez-se o encantamento
E Deus e eu vimos que era bom
Não me lembro bem o dia

05/10/2020